terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Profecia Kósmica


Nesta caostrópole que vivo,
ex-capital da eterna colônia
sob os sete sois do meio-dia
e a sombra da cruz na montanha,
o céu já despencou
mas ninguém percebeu...
Mesmo ao contemplarem,
todas as noites,
com olhos cegos
as estrelas amontoadas
em pobres morros e podres edifícios
sob um vazio esfumaçado,
daquilo que fora céu,
mas é apenas um infinito teto
preto e poluído.

Eu também não percebia,
até que certa vez
anoiteci longe da cidade
sob a ausência da lua nova...
Pude, então, contemplar
- percebendo o belo
e compreendendo o óbvio -
a verdade estrelada
em seu devido lugar:
de observador das cabeças
infinito e soberano
sobre noites silenciosas
e mentes perdidas.

Em meio à megalópole celestial
- habitada por belezas reluzentes,
dunas estreladas e anjos cadentes –
encontrei um pequeno
pedaço sideral
vazio e escuro,
perdido no horizonte.

Muito distinto daquela
outra escuridão!
esmagadora e urbana,
a qual cresci encarando:
onipresente cadáver
reprimindo de cima
meus versos noturnos...
Não! Esta mancha de Nada
não era muda, nem morta...
Por alguns minutos quis crer
nesta comparação equivocada,
enquanto fixava meus olhos
em sua direção.
Até que               – para meu espanto –
aquela pequena mancha
rompeu o silêncio universal
e alcançou meus ouvidos.

Perdoem-me qualquer heresia,
mas narro: Empiria
– talvez onírica, mas verídica.
E erética (sem “h”),
pois ouvi: voz de criança.
alegre mas assustada,
em pleno crescimento,
esfomeada
pelo infinito.

Explicou-me que os seus
eram chamados pelos ‘meus’
de ‘buracos negros’...
mas o que pensamos saber
sobre eles, é menos nada
que os significados de nós
percebidos por ela
– a tagarela criança cósmica:

Nós somos o nada
e nada eles tem de buracos,
ou de vazios.
Sem saber
Estamos apenas a espera
do crescimento de minha nova amiga,
para que, então, ela nos engula
– e, junto com seus irmãos,
a todo universo...
E então, tudo será ‘buraco negro’!

Me disse a criança,
pra que eu contasse pro’cês
o futuro com que Ela sonhava:
Onde não haverá mais colônias nem metrópoles...
nem ruas ou repartições..
nem plantas nem animais,
nem nuvens ou estrelas,
nem pastos ou livros
nem céu nem terra
nem chão, nem nada...

Apenas a voz,
viva sobre todo o Nada
daquela eterna  criança,
enfim com a fome saciada
de tudo engolir...
E ainda prometera:
que nós
– animais da Dúvida oculta
sob pele de Razão –
também estaremos,
enfim, satisfeitos:
pois só assim,
após engolidos pelo Nada,
finalmente poderemos
contemplar e ser
o que buscamos por séculos
inventando inutilmente
estandartes transcendentais:
um real Todo
no Kaos.
 



Niterói, Janeiro de 2017

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Medíocres segredos de guardanapos sujos


Beber ou não beber?
Eis a questão...
Beber da podre água subserviente
ou secar na sobriedade servil?



O cliente tem sempre a preferência

mesmo quando não tem razão.

Repita este mantra e terás paciência.


                       Eis o segredo do garçom:
- Precisa-se manter residência
atualizando-se na semi-escravidão
mesmo que como breve experiência
breve antídoto de solidão
no qual embebeda-se de contra-mãos
com dez por cento da penitência
e sempre o resto do patrão!


Inchado de ócio e álcool,
gargalha da inocente insistência
do funcionário que julga-se ladrão
por agir em sútil (e inútil) resistência
atrás da madeira de seu caixão.



Niterói, Novembro de 2016

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Trecho deslumbrado de "Tudo, de novo" (Leminski)


"Poucos 'marginais' são bons artesãos, dominando o instrumento, dialogando com o passado, levando adiante o que já estava joia. Ignorante. A 'poesia marginal' é, em boa medida, fenômeno etário. Juvenil. É poesia, para falar em termos medievais, feita por aprendizes. Mas aprendizes que querem elevar sua imperícia às culminâncias do ofício. Talvez isso seja apenas outro nome pra revolução, quem sabe. De qualquer forma, das Cruzadas, a das Crianças sempre foi a que me impressionou mais.
(...)
O fato é que o poema curto se impôs. O investimento de material verbal, na feitura do poema, foi, consideravelmente, diminuído. Donde teria vindo essa tendência à economia? Da publicidade? Das técnicas da poesia concreta, que devem tanto à publicidade? Ou é inexplicável mutação, inexplicável como todas as mutações que colocam em xeque nossas velhas lógicas apenas porque estão chamando novas lógicas à vida.

Todo poema que ultrapasse, hoje, o espaço monolítico de uma página tende, inevitavelmente, a parecer ligeiramente 'demodé'. (Mais uma razão, é claro, para fazer poemas longos. Afinal, hoje, eles são menos prováveis. E, portanto, bem menos possíveis.) Aos olhos de uma acústica atual, um poema longo não passará de uma longa sucessão de (bons ou maus) poemas curtos: a estrofe foi promovida à categoria de poema.

Alguns, mais exagerados, à extrema esquerda da poesia, chegaram mesmo a proclamar um só verso como Sua Excelência o Poema.

Corre que em alguns hospícios certos pacientes acreditaram poder ver o poema dentro de uma só palavra: a recuperação desses monomaníacos, ainda, está nas mãos da ciência. Poema, estrofe, verso, palavra, versos, estrofe, poema: no meio, a palavra, não alienação da realidade, obra-prima do homem, lugar onde a História adquire senso."

(Paulo Leminski, In: Ensaios e Anseios crípticos[2011], 69-70)

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Ogunhê! (II)



Quando Pai Ogum pisa na banda
o chão se estremece,
o peito se abranda
e a fé na paz fortalece.
Na ginga do General de Umbanda
dos problemas se esquece,
derruba-se toda demanda
nos atabaques que vibram sua prece...
Ele traz a força e a coragem de Aruanda
pro povo que nesta terra padece
sobre a saudade de Luanda
e a multidão na quermesse..

Protege-nos nas estradas
e nos campos de batalha.
Com o poder de suas espadas,
banhadas a ferro em fornalhas,
deixa completamente despedaçadas
qualquer possibilidade de falha.

Seu amuleto, ao balançar no peito,
quebra as barreira do medo
e encoraja o espírito
a descobrir seu próprio segredo,
a ser seu próprio mito
e encantar-se mais cedo...
Revela no não dito
as palavras mágicas do credo
e com a fumaça de seu pito,
perdoa o branco envergonhado
e purifica a luta do preto.

Unem-se sob a fé do povo perseguido,
cantando juntos ao Santo,
pedindo que o chão batido
não receba mais sangue mulato
e que as utopias do Quilombo escondido
tomem as veias do asfalto
e, enfim, rasguem o pesado fardo
nos libertando em um só grito
do chicote do passado,
do choro de sangue aflito
e do suor que ainda nos é roubado.

Pois, montado em seu cavalo,
o Rei de Irê atravessou o Atlântico,
para libertar seus filhos
negros e brancos
cafuzos ou confusos
da tortura física da chibata
e da pobreza metafísica
do monoteísmo.



Yan Venturin
Junho de 2016
Morro do Estado, Niterói.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

A cobra, a onça, a tela e o céu.



Se, como nos alerta Davi Kopenaua, para que o céu não caia sobre nossas cabeças é necessário que os brancos deixem de sonhar apenas com si mesmos e aprendam a sonhar com e como os índios, qual melhor instrumento poderíamos ter para conseguir isto do que a velha máquina criadora de sonhos? Com "O Abraço da Serpente", na minha humilde e ainda extremamente impactada opinião, o cinema alcança um novo estágio de seu poder sobre o inconsciente coletivo, em duplo sentido: ao mesmo tempo que, por um lado, está sendo pela primeira vez absorvido e deglutido em sua plena perfeição estética pelos espíritos e pela sabedoria da Floresta está, também, ao sofrer tal antropofagia, se elevando a um estatuto inédito de arte criadora de mitos que regerão a música dos caminhos futuros, se eles vierem para nós.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Favela Colonial






Veredas encurvadas de paralelepípedos
sobem, e descem, e sobem de novo,
bordando e cortando ondas
n’um pacífico mar de morros...

Majestosas, entre vielas e pedras,
vistas por dentro ou de riba,
precipitam-se Igrejas centenárias
alicerçadas em lágrimas,
de ouro e suor chicoteados,
sob o olhar vigilante e desgostoso
de milhares d’Árvores milenares
enraizadas em gritos ancestrais.

Montanhas e matas,
trançadas por auríferos rios
onde Logun Edé fora batizado
e o sangue africano escorrido,
cunhado, para erguer maciços
monumentos (e becos) eternizados...
eternamente belos e amaldiçoados,
de perto vigiados,
pelas matas e morros
que cercam a paisagem,
numa nostálgica revolta.

Empoeirada pelo tempo
e seus ventos de alegre angustia
amarelos e frios como o vil metal...
ecoam vivos, na ventania
e no silencioso coral d’grilos,
cantigas d’fé, paixão e tristeza
da poesia dos pretos antigos
e o sonho enforcado
de (in)certezas esquartejadas
d’um caboclo fugido...
por Oxóssi escondido
e por Oxum velado
ao fim de si mesmo.




Yan Venturin,
Morro de São Sebastião, Ouro Preto,
Carnaval de 2016

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Inspiração esticada de intensões camaradas

Quem o olha não o vê,
apenas num momento derradeiro,
após desistir de tentar entender.

Primeiramente só enxerga
o rosto de menino,
vendo sua boca larga
abrir-se num sorriso tímido.
Já quando se conserva uma conversa,
com o sotaque de seu silencio,
imagina-se de maneira apressada
ouvir à um rapaz perdido
numa loucura pacifica, mas incomoda(da).

Tudo isso se desmancha,
enfim todavia,
em preconceitos e vergonha
quando ele canta sua melodia...
ou quando arrancamos as mascaras
de nossa analfabeta hipocrisia
para debruçar-nos de cara limpa
sobre as palavras decantadas com harmonia
por sua oculta sabedoria.

Pus-me a seguir às trilhas abertas
por seu nomadismo poético
para sepultar ideias mortas,
expor segredos fonéticos
e desexplicar os acordes violetas
com que (sobre)vivemos o mundo patético.
Acabei por encontrar veredas tortas
de meu próprio labirinto estético
e espreguiçar os horizontes das frotas
do meu arsenal, até então estático,
de versos calados pela interna revolta
eterna: do ser-tão perigosamente herético.

Foi assim que encontrei-me no intimo
de versos e intensões alheias,
(Daquele sábio com rosto de menino,
com um sotaque de maluco e canto de sereia,
coração de poeta e silencio de profeta)

frente à sonhos e sons de tons infinitos
daquela mesma ânsia
dos meus próprios versos aflitos
que sonhavam com ser tamanha poesia.



Poema feito para (e a partir de) a poesia de Marlon Cardozo (amigo e mestre)

Niterói, 9 de Dezembro de 2015
Yan Venturin

terça-feira, 10 de novembro de 2015

O náufrago e a Risada.


Nadava perdido por um oceano
de podridão, rancor e vaidades.
Entre corpos afogados no ego mundano
e ondas imundas de prepotência inimagináveis.
Começava a lembrar de que era humano
e nada conseguiria jamais amenizar
o cansaço daquele esforço insano
que fazia para continuar
seguindo, no lamaçal desumano.
Já cansado de o nada abraçar
pensei em desistir do plano
de escapar deste lugar
e simplesmente parar,
boiando a deriva,
e esperar os tubarões virem me buscar.

Foi então que ela surgiu, flutuando
em uma pequena jangada,
de um duro plástico branco.
Logo me disse apressada
que não havia sentido nadar,
nem boiar, nem tentar rimar.
Não havia como se salvar,
não havia saída daquele mar.
Estávamos presos simplesmente...
Mas era bom não estar sozinha
e ter com quem conversar...

Perguntei quem era ela
e tive como resposta
o som lindo de sua gargalhada.
Me apaixonei pela melodia
das histórias que aquela risada me contava
e por seu modo de viver:
Sempre ali, cortando sozinha
as ondas da hipocrisia,
naquele barco-fardo
de trabalho e poesia.
E suas defesas contra a melancolia,
eram apenas duas:
o serviço mal pago
e o sorriso inapagável.

E que sorriso!
Magnifico e radiante,
inevitavelmente contagiante...
mesmo após os buracos e rugas
enfrentados pela vida,
antes e depois do naufrágio.
Logo percebi, no brilho de seus olhos,
que não passava de uma criança
alegre, corajosa e sabia,
mas tão perdida quanto eu
naquele oceano mesquinho...

Mas continuamos vivos
e seguindo, rindo e cantando,
entre o arrogante silencio
deste mar de ignorância
que os cadáveres boiando,
acéfalos pós-graduados,
ousaram chamar de Universo.


Para Memb, Novembro de 2015

Rio de Janeiro, Jacarépagua
Yan Venturin

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Caçadores Invisíveis

O rapaz apaixonado
vive uma guerra interna,
onde combate, de um lado,
sua lembrança infantil de escrever poemas.
Do outro, há o braço ensanguentado
de um monstruoso carrasco sem pena,
e seu fiel e irônico aliado:
um palhaço bobo e sem graça
que é o único a rir de suas piadas.

Suas estratégias atrapalham e iludem o poeta.
O carrasco o atrapalha com seus gritos
ecoando dentro da mente incerta,
reprovando sonhos e silenciando conflitos.
Já o palhaço ataca de forma mais indireta,
ao alimentar as utopias idealistas do espirito...
A ilusão do primeiro é a fé analfabeta
numa poética sem suor ou rito.
Enquanto a do outro é a busca desperta
atrás dos sonhos do menino aflito,
que quis crescer poeta
mas perdeu-se atrapalhado no mito
de uma inspiração seleta,
de um passado perdido
ou da posição de profeta.

Mas o que é um profeta sem discípulos?
Ou um poeta sem leitores?
São o mesmo que a inspiração sem compromisso
ou a mecanização dos amores.
É como um sacerdote sem destino
ou um ateu cheio de pudores.
O carrasco insiste em gritar com o menino
e o palhaço chora de tanto rir, entre as flores,
enraizadas a beira do abismo
de ilusões incolores
onde a alma cai em desatino
tentando descrever seus caçadores.

Palhaço e carrasco caçam na floresta psíquica,
narrando, aos gritos, antigas fábulas
sobre uma inspiração mística.
Fazendo-o se confundir com as rimas,
perdendo-as para as dúvidas da critica
e as dívidas do medo que o inclina
frente a pergunta fatídica:
qual a fonte energética do poema?
A tal inspiração teria uma origem metafísica
ou seria parte da natureza?
Fruto da vontade e da disciplina,
jogo entre lembranças e certeza,
ou simplesmente dádiva divina?

O carrasco nega-o as três alternativas,
decepando sonhos com sua lamina vil.
O palhaço, por sua vez, o faz acreditar
numa síntese indescritível
entre o menino que brincava de poeta
e o homem com a mania irreversível
de amar em prosa e sonhar com poesia.
Todavia, tudo parece impossível,
rimar, sorrir ou pensar,
quando se é caça do invisível
que habita aquele mesmo lugar
ao qual seria o único cabível
para alguma resistência brotar:
a alma insensível.

Este insensível campo de batalha
onde luta sozinho e desarmado
contra uma dupla armadilha
da consciência de rapaz apaixonado
que, entre versos calados, trilha
aos tropeços, um caminho abandonado.
Com o carrasco sempre a vigília
e o palhaço rindo ao seu lado,
daqueles medos e manias
herdadas do menino assustado
amadurecidas em fantasias
num poema desajustado.

Yan Venturin,
Morro do Estado, Niterói,
Agosto de 2015

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Vista submersa de versos poluidos



Jogo pedras na Baia de Guanabara
para tentar afogar a tristeza
ou acordar alguma deusa ou certeza.
Mas Yemanjá se mantem calada...
Me surpreendo com a beleza
que sobrevive, ainda que manchada,
em lotes encurralados da natureza.
Perdidos no horizonte sujo refletido n’agua
entre prédios submersos com luzes acesas
e tartarugas nadando em nuvens de fumaça.

Ao perceber toda essa neblina
que sai de canos de descarga
me esqueço, por um instante de nada,
da minha tristeza e da agonia do mar
e resolvo ascender um cigarro de palha
para ter com quem conversar
ou apenas para conseguir respirar.

Como se me mandando parar de fumar
Dona Janaina finalmente decide se pronunciar,
como sempre sem o silencio desmanchar:
sopra forte sobre meu rosto
um vento salgado que envolve meu corpo
refresca meu peito
e fuma meu cigarro quase todo.

Mas assim como este venenoso hábito
a resposta também dura pouco...
o vento vai diminuindo aos poucos
e de repente seu pouco
já não é nada.
Mas eu continuo ali, feito um louco,
conversando com aquele silencio rouco
com que canta a solidão da madrugada
refletida nas ondas da Guanabara
sobre pedras afogadas,
tartarugas poluídas
e tristezas caladas.



Niterói, Abril de 2015